Imagem: autor desconhecido
Alguma coisa morreu em mim, quando sem querer perguntei por meu amigo e vizinho , à pessoa que o acompanhava.
Tulio era um rapaz simpático. A idade nunca soube e pouco me interessava.
Conversávamos sempre que nos encontrávamos. Ele, no seu jeitinho que eu entendia.
Falávamos sobre nosso time, o Botafogo. Era quando ele sorria, sempre otimista.
Achava que naquele jogo o Botafogo ganharia. Havia um brilho de esperança e vida.
Chamava-me de "Meu Pão de Mel", "Meu Docinho de Coco", talvez por ser a única que lhe dirigia a palavra.
No verão, a praia era sua alegria. Saia saltitante para ver o mar.
A mãe não parecia suportar bem sua presença. O marido a abandonou assim que ele nasceu e foi constatada a "Síndrome de Down". Nunca a vi. Todos os dias a camionete da APAE o apanhava cedinho e o trazia à tardinha.
Um dia, já era noite, quando entrando no prédio, o vi sozinho , esperando que alguém o buscasse.
Ofereci minha casa, mas ele não aceitou, dizendo um "Vão brigar" quase inaudível.
Certamente estava com fome, sede. Fiquei ali um pouco, mas ele nada falava.
Ele era tranquilo, adorava televisão, sempre sorridente, mas deixava transparecer profunda tristeza no olhar.
Passado um tempo eu o vi indo para a natação, Pilates, judô e tudo que o mantivesse ocupado e longe de casa.
Num exercício mais forte, seu coração não suportou.
Este ano não o verei feliz à caminho da praia.
Quando senti sua falta, ele já havia partido.
Faltou o abraço que nunca dei. E tantas outras coisas que sequer perguntei.
Deve ter sido difícil também para a mãe.
Há casos onde a única solução é a aceitação.
Mais uma estrela solitária no céu.

Fato verídico. Nome preservado